Resenha: A Falência por Júlia Lopes de Almeida

a falencia julia lopes de almeida

Nota: ★★★★★

Categorias: Ficção Clássica

Bem recebido pela crítica em seu lançamento (em 1901), A Falência destaca-se da produção de obras dessa época. Em um cenário de romances amorosos, Júlia Lopes de Almeida narra com crueza o enredo de uma mulher adúltera em busca de realização, entremeado à derrocada de um exportador de café. Camila, de origem pobre e casada com Francisco Theodoro em virtude da comodidade que a riqueza do marido lhe traz, descobre a paixão tardiamente nos braços do doutor Gervásio. Francisco de nada desconfia, mas terá seu ideal de família perfeita abalado após um mau negócio que o leva à falência. A Falência, segundo biografia ainda não publicada pela filha da autora, levou mais de quinze anos para ser produzido, tornando-se a obra-prima de Júlia Lopes de Almeida, uma das maiores escritoras da literatura brasileira.

Este livro está ficando mais conhecido desde que a Editora Mulheres relançou o trabalho de Júlia Lopes de Almeida, uma escritora cuja extensa carreira caiu no esquecimento depois de sua morte. Peguei pra ler meio sem expectativas (tive problemas em gostar de outros clássicos brasileiros, e são raros os que me conquistam!), e fiquei surpresa por ter gostado tanto da história!

Fiquei encantada com a escrita da autora – as descrições muito atmosféricas e a prosa bonita. Mas o melhor da escrita dela é o humor e crítica da sociedade da época através de personagens, gente de classe alta que ela apresenta como extremamente supérfluos, hipócritas e que se veem como superiores aos de classes baixas. 

Um hálito ardente de verão bafejava toda a rua febril.

A ambientação em 1891, quando o Brasil estava enriquecendo através da exportação de café e pouco tempo depois da proclamação da República, é extremamente interessante.

É preciso falar sobre uma ressalva que eu tive durante a leitura deste clássico: como tantos outros da época, A Falência claramente tem subtons racistas, descrevendo negros com “olhos esbugalhados” e outras expressoes animalescas, e usando termos como “o povo negrejava”, “o bom negociante não é aquele que trabalha como um negro (…)”, usando “beiço” para descrever lábios mas “lábios” quando descrevendo pessoas brancas etc. Um dos personagens (Europeu) chega a romantizar e sentir falta dos tempos de escravidão (embora esse trecho eu tenha lido com tom sarcástico, e acho que a autora fez assim de propósito, visto que ela era abolicionista). Mesmo sendo abolicionista e feminista, é pouco realista imaginar que a história não tenha subtons racistas, pelo simples fato de que essa seria a sociedade da época da autora. Ela faz questão de escrever um capítulo sobre uma das personagens (branca) defendendo uma personagem negra e depois refletindo sobre como, apesar de diferentes, elas tem os mesmos sentimentos e direitos. Entendo o que a autora quis fazer e acho que a intenção foi boa, mas eu preferiria, obviamente, ter tido mais pontos de vistas das personagens negras ao invés disso, e mais agência.

Num aspecto muito mais positivo, as mulheres na história realmente fazem este livro brilhar. Todas tem personalidade distinta e trazem várias discussões que desafiam os pensamentos machistas da época (e de hoje em dia), como a forma diferente como o adultério de Camila e o de Theodoro são tratados pelos amigos e família, como as mães são culpadas pela sociedade pelo defeito de seus filhos, o direito ao voto etc. Uma das melhores partes é logo no início do livro, quando Camila rejeita um livro de romance que seu amante sugere que ela leia porque “conta uma história parecida com a deles”, e ela responde que as mulheres desses livros sempre morrem ou sofrem alguma desgraça como punição pelo adultério, que elas normalmente cometem por terem se apaixonado depois de entrar em um casamento sem amor quase forçadas, e o mesmo não acontece aos homens. Assim, este livro se destaca como um contraste de Madame Bovary, Anna Karenina e outros, dando à personagem principal uma história além da infidelidade.

Então não leio. Sei que está cheio de injustiças e de mentiras perversas. Os senhores romancistas nao perdoam às mulheres; fazem-nas responsáveis por tudo – como se nao pagássemos caro a felicidade que fruímos! Nesses livros tenho sempre medo do fim; revolto-me contra os castigos que eles infligem às nossas culpas, e desespero-me por não poder gritar-lhes: hipócritas! hipócritas!

Além disso, o livro oferece uma crítica forte à classe alta, seu ócio, desperdício e egoísmo. Sinto que a pobreza foi bastante romantizada, mas apreciei a autora mostrando a classe alta como menos que ideal.

Até então a leitura já é bem interessante, mas A Falência fica absolutamente viciante aos 70%! Eu simplesmente não consegui parar de ler e terminei a última frase com um “o quê!” em voz alta, coisa que nunca acontece quando estou lendo clássicos, e depois enchi o ouvido do meu marido falando desse livro por dias, então não tinha como eu nao dar 5 estrelas. Uma obra excelente que merece ser mais popularizada!

3 thoughts on “Resenha: A Falência por Júlia Lopes de Almeida

  1. Pingback: The Best Books I Read in 2020 (All Genres) | Naty's Bookshelf

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